Juveirce Christiane dedica a trajetória à defesa da comunidade surda e afirma que políticas públicas permanentes são essenciais
A intérprete de Libras e professora Juveirce Christiane Medeiros Ramos Condi, de 52 anos, natural de Cuiabá, encontrou na luta pela acessibilidade um propósito de vida. O ponto de partida foi um desconforto profundo: perceber que pessoas surdas eram sistematicamente ignoradas nos espaços sociais.
“Quando tive contato real com a comunidade surda, entendi que ali havia cultura, identidade e potência. O que faltava era acesso”, relata. Foi nesse momento que a Libras deixou de ser apenas uma língua e passou a representar uma ponte. “Escolhi ajudar a construir essas pontes todos os dias.”
Comunicação é direito – Ao longo da carreira, Juveirce enfrentou resistências que extrapolam a ausência de estrutura. Para ela, o principal obstáculo sempre foi a percepção equivocada de que acessibilidade seria um gesto de boa vontade.
“Muitas vezes precisei insistir, explicar, reivindicar. A superação veio com persistência, informação e diálogo firme”, afirma. Mas ela destaca que nenhum avanço ocorre de forma individual. “Essa conquista é coletiva. A comunidade surda sempre se posicionou e nunca se calou.”
Na área da saúde, a responsabilidade se torna ainda maior. Juveirce lembra situações em que precisou intermediar diagnósticos graves. “Transmitir uma informação que muda a rotina e a forma de enxergar o mundo exige preparo, sensibilidade e ética.”
Autonomia no cotidiano – Para a intérprete, uma cidade acessível significa independência. “É poder circular, ser atendido e participar sem depender da boa vontade de terceiros. É ter o direito linguístico respeitado.”
Ela reconhece avanços em Campo Grande, mas ressalta que ainda há um longo caminho. “Acessibilidade precisa ser política pública permanente. Ainda faltam intérpretes nos serviços essenciais, formação continuada, fiscalização e compreensão de que garantir direitos não é gasto, é compromisso.”
Quando o acesso transforma vidas – Entre tantas experiências, uma resume o impacto da acessibilidade. Juveirce acompanhou todo o pré-natal e o parto de um casal surdo. Pela primeira vez, os pais puderam compreender cada etapa do nascimento do filho.
“Eles participaram de tudo. Entenderam, perguntaram, riram. Estavam presentes de verdade”, recorda. Ao final, a mãe disse: ‘Hoje eu participei. Hoje eu existi aqui.’
“Essa frase explica tudo. Acessibilidade não é apenas informação. É dignidade”, afirma.
O que precisa mudar – Para que a comunidade surda deixe de ser invisibilizada, Juveirce defende a transformação da acessibilidade em política de Estado. “Contínua, estruturada e obrigatória.”
Isso inclui intérpretes qualificados em todos os espaços de atendimento ao público, ampliação da educação bilíngue, valorização profissional, protocolos claros e reconhecimento da pessoa surda como sujeito de direitos.
Fonte: Diário Digital










