Falta de vídeo ao vivo impede estudantes com deficiência auditiva de fazer perguntas

Não era o que a família queria, mas Dennes Júnior Souza Costa, 16, aluno da rede municipal de Belo Horizonte, precisou retornar para as aulas presenciais no mês passado, uma vez na semana. A decisão era esperar que a vacinação contra a Covid-19 alcançasse sua faixa etária na capital de Minas Gerais.

Dennes é surdo e sofreu para seguir com os estudos de forma remota. “É muito difícil. Quando ele não entende uma questão, não tem como tirar dúvidas. Tento explicar, mas às vezes não consigo”, diz a mãe, Simone Alves de Souza, 33.

Como no caso dele, estudantes surdos pelo país enfrentam dificuldades com aulas gravadas, sem espaço para fazerem perguntas em tempo real, ou até com vídeos sem intérprete de Libras. Sem preparo, a maioria dos pais se sente limitado em se expressar de modo a ajudar os filhos nas tarefas.

Simone aprendeu Libras, a linguagem de sinais, para se comunicar com o filho. A faixa etária dele passa a ser apta para ser vacinada nesta semana, e Dennes deve se imunizar nesta quinta-feira (9).

No caso de Dennes, não há aulas online, como as dadas para os demais estudantes. Todas as matérias são passadas por intérpretes em vídeos para os surdos via Whatsapp. No ensino presencial, eles contam com um intérprete de Libras na classe.

O problema se repete para a mãe de outras duas meninas surdas-mudas da capital mineira, de oito e anos anos. “Só ficam mandando atividades. O melhor é assistir ao vivo. Gravado não dá para tirar as dúvidas. Se tem alguma, precisa enviar mensagens para o professor, que muitas vezes demora para responder”, diz a mãe, que prefere não se identificar.

Procurada, a Prefeitura de Belo Horizonte afirma ter registrado problemas e que tomou providências. “No ensino remoto identificamos dificuldades em relação à comunicação dos estudantes surdos em libras e compreensão em relação aos conteúdos”.

Entre as providências tomadas, o município afirma que enviou orientações, material didático e mantém oficinas virtuais para professores, alunos e seus familiares no sentido de aprimorar o conhecimento sobre a linguagem dos sinais e sua conexão com o português.

No Paraná, uma pesquisa da Universidade Estadual de Maringá apontou que os alunos surdos de baixa renda são ainda mais prejudicados pelas lacunas do ensino remoto, por exemplo, por não terem sempre os pais ou um responsável para ajudar nos estudos ou por faltar internet.

De 47 estudantes surdos consultados de diversas idades de Foz do Iguaçu, a pesquisa mostrou que 88% dos pais deles não sabiam se comunicar em Libras, para poder auxilia-los nas tarefas.

“Muitos não conseguem estabelecer contato com a escola. A dificuldade de realizarem as atividades sozinhos é imensa. Imagine você não dominando bem uma língua, e ter que ler em outro idioma sem apoio parental”, disse Dinéia Fellini, responsável pela pesquisa.

Na rede estadual, um agravante: por um mês, no início da pandemia, parte dos vídeos do governo do Paraná não tinha intérprete de Libras, falha depois sanada.

Em Foz, a aluna Antonella Zárate, 8, tem surdez profunda bilateral. Desenvolta, diz “oi!” e “tudo bem?” em Libras para a reportagem em chamada de vídeo. Ela estuda na Apasfi (Associação Brasileira de Pais e Amigos dos Surdos), no terceiro ano do ensino fundamental.

Para a mãe, Glória Zárate, a menina se sente mais livre e feliz na escola, algo perdido na pandemia. “É muito difícil repassar as atividades em casa, pois exige um maior trabalho visual, eu aprendi o básico de Libras para me comunicar com ela, mas ainda não é o suficiente”.

Em nota, a Secretaria de Educação do Estado do Paraná disse que a pandemia impôs desafios para toda comunidade escolar.

“Aos estudantes sem recursos tecnológicos foram ofertados materiais impressos, retirados pelos pais ou responsáveis nas respectivas instituições de ensino, disponibilizamos vídeos em Libras orientando a realização das atividades”.

Para a gaúcha Isabella Barbosa, 9, foi um ano perdido. Ela é surda de nascença, mas usa implante coclear desde os dois anos —é uma surda ouvinte.

Antes da pandemia, embora não tivesse um currículo adaptado, ela conseguia acompanhar as aulas presenciais com ajuda de um professor de apoio. Mas, em 2020, a escola passou a ter aulas totalmente online.

“Isso atrapalhou ainda mais a Isabella, pois ela não tinha professor de apoio e a professora não conseguia dispensar a atenção necessária. Os coleguinhas também não entendem muito bem que qualquer barulho a mais atrapalha muito, imagina por vídeo?”, conta o pai, Fabiano Barbosa.

Em abril deste ano, a escola passou a adotar um sistema de aulas com uma semana online e outra presencial. “Solicitei aulas somente presenciais, o que foi acatado. Hoje ela vai todos os dias às aulas, tem professora de apoio e estão desenvolvendo um plano de ensino individualizado”.

Ele, no entanto, conta ainda se sentir frustrado pela falta de inclusão. “Esse desprezo e desleixo com os ‘diferentes’ nunca mudará se a sociedade e o governo não se conscientizarem que não podemos tratar diferentes como iguais.”

Já para a estudante carioca Eduarda Gaspar, 14, que tem perda severa de audição e usa aparelho auditivo desde os 4 anos, o momento mais difícil foi quando as aulas passaram a ser híbridas, com os professores e alguns alunos na sala de aula e outros assistindo remotamente.

De casa, neste sistema, ela não consegue ler os lábios dos professores, que ficam em pé e não de frente para o computador. Também tem que lidar com os barulhos externos dos alunos e da escola.

“A dificuldade aumentou muito porque a qualidade do som era péssima. Era impossível entender tudo que os professores falavam. Comecei a ficar desesperada por não entender quase nada das aulas. Chorei, fiquei muito mal”, conta.

Eduarda pediu que as aulas fossem legendadas para que ela pudesse acompanhar, mas não foi atendida pela escola particular. Só este ano, conseguiu que os professores passassem a usar um microfone que abafa o barulho externo, o que ajudou, mas não resolveu totalmente.

“Melhorou, mas não está 100%. Consigo me virar por mérito meu, fico perguntando aos colegas o que foi dito ou peço para o professor repetir”, afirma.

O baiano Leo Viturinno é youtuber e professor substituto de Libras na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia). Ele, que é sinalizado e oralizado, precisou adaptar as aulas do presencial para as videochamadas.

O principal desafio foi a oscilação da internet e a falta de paciência dos alunos. “No começo, a minha imagem ficava travando. Eu também tive dificuldade de acompanhar o intérprete de Libras na tela. Os alunos reclamavam que não conseguiam me visualizar direito e pediam para eu repetir, enquanto outros, sem paciência, não se importavam e eu continuava a aula assim mesmo”.

Depois, o professor passou a gravar as aulas e publicar em uma plataforma. A cada semestre, Viturinno leciona em diferentes cursos. Agora, dá aulas para odontologia, pedagogia e educação física.

“Nos primeiros encontros virtuais, eu sempre oriento e aconselho os meus alunos a terem paciência e se esforçarem um pouco”, diz.

Fonte: Mais Goiás

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