O Câmpus Palhoça Bilíngue do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) produz e disponibiliza gratuitamente conteúdos educacionais digitais em Libras e português para estudantes surdos de todo o Brasil. A iniciativa integra o projeto “IF Libras” e tem o objetivo de promover mais acessibilidade e inclusão educacional para estudantes surdos do ensino médio e técnico da educação básica em redes de ensino em âmbito nacional.
A produção é realizada pelo Núcleo de Produção Bilíngue (NPB) do câmpus, com financiamento da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec), vinculada ao Ministério da Educação (MEC). O projeto atua em duas frentes principais: a produção de vídeos originais bilíngues e a curadoria de materiais educacionais já existentes.
Base legal e proposta pedagógica
A iniciativa surgiu da necessidade de criar materiais desenvolvidos desde a sua concepção para a educação bilíngue de estudantes surdos, considerando a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como língua principal de instrução.
Segundo a Pró-reitora de Ensino do IFSC, Eliana Cristina Bär, que estava na direção-geral do câmpus quando o projeto iniciou, a proposta tem raízes em pesquisas anteriores. “A ideia do projeto IF Libras surgiu em 2020, com base nos resultados de projetos de pesquisa fomentados pela Setec, entre 2018 e 2019, que tinham como foco o desenvolvimento de metodologias para a produção de recursos digitais bilíngues”, explica.
Ela destaca ainda que a produção de materiais bilíngues já fazia parte da identidade do câmpus. “O NPB sempre foi estratégico para o fortalecimento da pesquisa e o desenvolvimento de materiais voltados à educação bilíngue, além de contribuir para a formação de professores”, afirma.
A iniciativa está alinhada à legislação que reconhece a Libras como língua da comunidade surda e às políticas nacionais de educação bilíngue, entre elas a Lei Federal nº 10.436/2002, a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos (Lei nº 14.191/2021), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) e o recente Plano Nacional de Educação (PNE) 2026-2036.
Metodologias e etapas de produção
A produção dos recursos educacionais bilíngues resultou em cerca de 80 vídeos educativos, com duração média de cinco minutos cada, desenvolvidos para servir de material de apoio a professores que tenham alunos surdos em sala de aula. A metodologia valoriza a experiência visual, e os conteúdos abrangem disciplinas da formação geral e de áreas técnicas, utilizando elementos como animações, gráficos, mapas e ilustrações.
Os materiais passam por um processo estruturado que inclui: escolha da disciplina e do tema a ser abordado; roteirização; consultoria surda; produção de guias para a sinalização em Libras; gravação e edição de imagens; animação e ilustração; legendagem e revisão. A avaliação está inserida em cada uma dessas etapas, o que garante rigor à metodologia proposta.
Um dos principais desafios esteve justamente na construção dessa metodologia. “Elaborar recursos tendo a língua de sinais como primeira língua exige uma reorganização das práticas tradicionais de produção de materiais didáticos. Foi um processo complexo, que demandou constantes ajustes e aprimoramentos”, explica Eliana.
Segundo ela, a própria dimensão do projeto também exigiu avanços na gestão. “Houve necessidade de aperfeiçoar fluxos de trabalho, alinhar equipes e cumprir prazos. Esses desafios foram superados com organização e acúmulo de experiência ao longo da execução”, relata.
O trabalho foi realizado por uma equipe multidisciplinar, composta por surdos e ouvintes, que reuniu docentes atuando como conteudistas e consultores, designer instrucional, roteirista, tradutores e intérpretes de Libras, além de profissionais das áreas de audiovisual, animação e revisão. O professor e coordenador do projeto no câmpus, David Pereira Neto, destaca que a atuação integrada desses profissionais garante materiais tecnicamente qualificados, pedagogicamente consistentes e culturalmente adequados.
Já na parte do projeto que envolve a curadoria, os materiais educacionais são selecionados junto à comunidade acadêmica do câmpus, priorizando conteúdos com sinalização em Libras. Em seguida, passam por avaliações de aspectos de design, conteúdo, linguagem e adequação cultural. Depois são organizados por uma equipe também multidisciplinar. “O processo é diferente da produção dos vídeos originais, mas envolve um rigor semelhante nas avaliações, embora ocorra em menos etapas”, explica David.
Ele acrescenta ainda que, quando o material é totalmente aprovado, é disponibilizado à comunidade como um recurso adequado para uso. Caso um ou mais aspectos recebam avaliação insatisfatória, o conteúdo é encaminhado para as correções indicadas pelos especialistas.
“Por não se tratarem de recursos planejados, desde o início, especificamente para o público surdo, eles são considerados materiais acessíveis, e não bilíngues. Entre esses materiais estão, por exemplo, conteúdos produzidos por professores para aulas não presenciais durante a pandemia, trabalhos desenvolvidos por estudantes do curso de Produção Multimídia, artigos de revistas digitais do mesmo curso e até apresentações elaboradas por docentes para aulas presenciais”, comenta o coordenador.
Acessibilidade e cultura surda no centro da produção
Um dos diferenciais do projeto, no caso dos vídeos bilíngues, está na forma como os conteúdos são concebidos. “A acessibilidade está na base de todo o processo, pois os conteúdos não são adaptados, mas produzidos desde o início para o público surdo, que tem a língua de sinais como primeira língua. Não se trata apenas de traduções”, explica a diretora-geral do câmpus, Simone Gonçalves de Lima da Silva, que é surda.
Ela ressalta que os vídeos seguem uma lógica visual própria da cultura surda e apresentam uma estrutura didática clara e de fácil assimilação, o que fortalece a aprendizagem, respeita as especificidades desse público e ainda possibilita seu uso como material de consulta contínua.
Impacto educacional
A iniciativa contribui para a democratização do acesso ao conhecimento e para o fortalecimento da educação bilíngue no Brasil. A expectativa é beneficiar mais de 60 mil alunos surdos da educação básica, conforme dados de 2022 do Censo Escolar realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Para Simone, o impacto vai além dos estudantes. “Os vídeos também apoiam familiares, estudantes, professores e colegas, promovendo inclusão educacional em diferentes contextos de ensino”, destaca.
O projeto também tem impacto formativo, pois possibilitou a participação de estudantes bolsistas do curso superior de Produção Multimídia da própria instituição. “A participação de estudantes e egressos do câmpus fortalece sua formação acadêmica e profissional, além de promover o protagonismo da comunidade surda”, lembra a pró-reitora de ensino do IFSC, Eliana.
Disponibilização dos conteúdos e resultados esperados
Os vídeos foram disponibilizados no EduPlay, plataforma digital de alcance nacional, voltada principalmente para o ensino, a pesquisa e a divulgação científica de instituições públicas, como institutos federais e universidades. O acesso é gratuito e aberto ao público.
A expectativa é que os conteúdos fortaleçam a educação bilíngue e ampliem o acesso de estudantes surdos ao conhecimento em diferentes regiões do país.
Fonte: IFSC








