Desabafo de aluna surda para incluir Libras na escola viraliza nas redes sociais.

A menina Manuela Machado do Amaral, de nove anos, é uma das 10,7 milhões de pessoas, no Brasil, com deficiência auditiva. Aluna do quarto ano do ensino fundamental da Escola Municipal Tenente Coronel Vilagran Cabrita, que fica em Araguari, Minas Gerais, ela e a mãe fizeram um vídeo apresentando a experiência que uma criança surda vive no cotidiano colegial.

Ela conta que é a única criança surda da escola. Os colegas não sabem a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e, por isso, não conseguem se relacionar com a surdez dela. Como resultado dessa dificuldade, a estudante se sente isolada em sala de aula e no momento do recreio. “Às vezes fico muito triste e nervosa. Isso influencia no meu aprendizado e desenvolvimento escolar”, mostra o cartaz exibido no vídeo.

Libras nas escolas
Para Manuela Machado, seria importante implantar a Libras nas escolas. “Mesmo que meus colegas aprendam o básico, já seria um grande passo”, opina. O desejo da estudante surda é que a mensagem alcance os órgãos competentes para que possam conhecer a realidade que crianças surdas vivenciam nas escolas. O vídeo termina pedindo providências.

Mas o que diz a lei? Seria necessário o pedido sensível feito pela estudante Manuela Machado? O artigo 27, parágrafo único, da Lei 13.146/2015º mostra que “a educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem”.

Mãe professora de Libras
A mãe da Manuela, Michele Machado, 36 anos, é professora de Libras, graduada em pedagogia pela PUC Minas Gerais e Letras/Libras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela já atuou em escolas públicas inclusivas de Minas por 10 anos, com apoio e ensino de Libras para crianças. Segundo ela, na escola da filha há intérprete de Libras, mas não uma professora de Libras.

“Minhas filhas ficam na escola em tempo integral, porém a intérprete só permanece em meio período. Isso está errado. Não concordo que a intérprete acompanhe a Gabriela. Minha filha mais nova, de 5 anos, também é surda e ainda não domina a Libras. O certo é professor surdo ou bilíngue”, afirma Michele Machado. Para ela, o vídeo é basicamente um grito de socorro. “Eu venho lutando há um tempo – e postando nas redes sociais – a dura realidade das crianças surdas nas escolas. Sonho muito com a disciplina de Libras na grade curricular, professores bilíngues e intérpretes de Libras mais capacitados”, revela.

Despertar sobre o outro
A empreendedora social e fundadora da MultiDom Educação Inclusiva, Rosiane de Mello, diz que a pandemia provocou um despertar sobre a necessidade do outro. Segundo ela, é preciso manter essa chama viva para trabalhar temas tão importantes e inclusivos. “Manuela é uma das muitas crianças que são inseridas na educação, mas que não desfrutam da inclusão por inteiro. A ausência de conhecimento sobre o tema e o entendimento sobre o que de fato é inclusão provoca esse sentimento compartilhado pela Manu: rodeada de possibilidades, bloqueadas pela ausência de acessibilidade coletiva”, frisa.

Rosiane, que viabiliza o ensino de Libras para crianças nas escolas do Rio de Janeiro, chama a atenção à metodologia da inclusão reversa. “A inclusão reversa é importante para impactar as crianças sem deficiência. É a oportunidade para compartilhar um novo olhar sobre as diferenças, trabalhando conceitos e práticas para a inclusão”, explica Roseane. No projeto educacional elaborado pela empreendedora social, há também a contação de histórias de superação, com a participação de 25 personagens – bonecos de pano. Cada um deles retrata uma deficiência: o amputado, o surdo, o cego, o autista, etc.

Curso on line para ensino de Libras
Atualmente desempregada, a mãe da Manuela, professora Michele Machado, criou um curso on line para o ensino de Libras. Ela conta como as filhas “se sentem” quando chegam em casa depois da escola, que não está preparada para incluir verdadeiramente as crianças surdas.

“Elas, muitas vezes, escondem certas emoções. Passam por momentos chatos e voltam tristes, outras vezes irritadas. As meninas tentam conviver da melhor forma possível com a indiferença e o preconceito dos colegas, tentam superar. Elas sabem que devem ser respeitadas, eu passo isso para elas como pessoa surda e como profissional pedagoga. Não gostaria que, por falta de despreparo das escolas, elas fossem prejudicadas tanto no emocional como no aprendizado”, frisa Michele Machado.

Perguntada como a falta de inclusão nas escolas, na sociedade atinge as crianças que têm surdez, a mãe da Manuela e da Gabriela responde: “prejudica muito a formação escolar da criança, óbvio. Ela cresce sem ter uma formação adequada para poder entrar numa universidade, prestar concursos, conseguir empregos. Isso ainda sem contar com o estado psicológico”, lamenta.

Inclusão
De acordo com Rosiane de Mello, depoimentos como o da Manuela trazem à luz a realidade da inclusão na prática: a que insere e não inclui. “Inclusão nunca será sinônimo de exclusão. É fácil excluir quando o excluído não somos nós. Quando amadurecermos esse entendimento, o suprimento da necessidade do outro será consequência”, afirma. Em três semanas, o vídeo da estudante Manuela alcançou marcas expressivas. São 18 mil curtidas, quase 300 mil visualizações, 13 mil compartilhamentos e 850 comentários. “O vídeo precisa chegar aos órgãos competentes para que tomem conhecimento da realidade que as crianças surdas vivenciam nas escolas. Há necessidade de providências para que Libras seja uma disciplina na grade escolar”, finaliza Michele Machado.

Fonte: Eu, Rio!

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