Com mais de mil estudantes surdos, deficientes auditivos ou surdo-cegos matriculados em escolas estaduais e municipais, educação pública ainda falha ao oferecer ferramentas para inclusão plena e efetiva.

“Nas salas de aula, tem inglês e espanhol na grade escolar. Por que Libras é tão escassa, se ela e português são as línguas do Brasil?” O questionamento vem pelos gestos de Vitória Valeska, 18, estudante do 2º ano do ensino médio da rede estadual, e traduz uma das principais inquietações de alunos e profissionais da educação surdos: a falta de conhecimento e atenção sobre o ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Se, por lei, toda escola pública ou privada deve receber estudantes com qualquer tipo de deficiência, na prática, fazer o direito valer é custoso. Para Vitória, uma dos 263 surdos matriculados em escolas estaduais de Fortaleza, chegar a um cenário favorável ao aprendizado exigiu uma caminhada tortuosa. Surda por sequela da rubéola contraída pela mãe na gestação, a jovem chegou a ser matriculada em uma escola comum: período “difícil” que durou quatro anos.

“Eu não conseguia desenvolver o aprendizado, a interação com os alunos era muito difícil. O professor falava e eu não conseguia entender, sanar minhas dúvidas. Então encontramos o Instituto Filippo Smaldone, que tem acessibilidade para surdos, e comecei a crescer, me desenvolver na minha língua. Porque o português, para nós, é a segunda língua”, ressalta.

Hoje, Vitória estuda na Escola Estadual de Ensino Profissionalizante (EEEP) Joaquim Nogueira, no bairro Parquelândia, que tem outros 25 estudantes nesse perfil – ambiente que proporciona segurança e respeito aos surdos. “Quando cheguei, consegui ter contato com coisas novas, com as pessoas. Desenvolvi minha afinidade pelas áreas de química e física, e sonho em ingressar nelas. A maioria dos surdos quer ingressar em Letras Libras, mas tenho vontade de seguir para outras áreas, porque hoje sei que é possível se tiver sede de aprender”, sentencia.

Tabus
A “sede” é compartilhada por Clébio Filho, que aos 22 anos cursa a última série do ensino médio: defasagem resultante da falta de estrutura que enfrentou na rede educacional até chegar lá. “Antes daqui, eu era o único surdo em uma escola. Não conseguia absorver as informações, a comunicação era muito difícil. A sociedade pensa que o surdo pode se adaptar a esse lugar, mas é difícil. É uma barreira”, avalia.

O objetivo profissional, assim como para Vitória, também ruma para o oposto do ensino de Letras. “Meu sonho é cursar na área de computação, porque tenho muita afinidade. E sei que é possível. A sociedade precisa respeitar a comunidade surda, ter empatia, quebrar esses tabus”, frisa Clébio, que ainda tem um obstáculo a saltar: a prova de redação do Enem.

“Existe a vídeo prova, que mostra as perguntas e o surdo pode marcar as respostas. Mas na redação, ainda precisamos nos esforçar para saber escrever no português, que não é a nossa língua”, reforça Vitória.

Para quebrar a barreira do idioma entre Vitória, Clébio e a nossa equipe de reportagem, aliás, foi necessária a ajuda de Fernanda Venâncio, 17, estudante do curso profissionalizante em Libras na escola Joaquim Nogueira há dois anos. “Foi um horizonte que se abriu pra mim. Eu não sabia que intérprete era uma profissão. Amo meu curso, amo os surdos, e me arrependeria se não tivesse escolhido isso. Quando a gente passa a informação pro surdo, é a melhor sensação do mundo”, empolga-se.

Formação
Para Elizabeth Chagas, diretora da escola, o grande desafio do ensino público é a formação de profissionais. “Ainda estamos construindo a acessibilidade. É preciso vários intérpretes, para que as falas dos surdos não sejam monopolizadas; a formação de profissionais em Libras; a presença de professores surdos, para serem referência aos estudantes; e a garantia de que todos os cursos tenham o ensino da língua, o que estamos pleiteando”, lista. Atualmente, as turmas de enfermagem e hospedagem da escola, por exemplo, não contam com a disciplina de Libras: “os alunos aprendem pelo convívio”.

A presença de profissionais de educação surdos também é apontada por Rodrigo Machado, 36, professor e coordenador do Departamento de Letras Libras e Estudos Surdos (Delles) da Universidade Federal do Ceará (UFC). “A formação em educação especial tem seu valor, mas é preciso uma específica para atender às necessidades de alunos surdos. É uma das maiores carências que temos no ensino público hoje”, destaca, com a propriedade de quem precisou sair de Fortaleza a Porto Alegre, na adolescência, para ingressar em escola e universidade adequadas.

97% de matrículas a mais
O número de deficientes auditivos e surdos matriculados em escolas municipais de Fortaleza saltou de 111, em 2015, para 219, neste ano. Em 2016, porém, chegou a 241 alunos. Os dados são da Secretaria Municipal de Educação (SME).

“Na escola, era obrigatório o modelo oralista. Eu copiava anotações dos colegas ouvintes e precisava de reforço escolar em casa. Matemática, física e química eram mais fáceis, por serem mais visuais. Mas português e história, por exemplo, eram bem difíceis de acompanhar. Só tínhamos liberdade para usar Libras em contato com a comunidade surda”, relembra Rodrigo, um dos quatro filhos surdos da família. Para conversar com ele, precisamos do auxílio dos intérpretes da UFC, Diego Lial.

Hoje, o professor e doutorando analisa as maiores mudanças necessárias às redes de educação pública e privada para respeito aos surdos. “Temos muita demanda de pesquisa para criação de materiais didáticos a alunos e professores. As coisas não estão evoluindo na velocidade que gostaríamos. É preciso mais vontade política”, declara. “As línguas têm poder. Não ter Libras como obrigatória no currículo básico é decisão política”, conclui Rodrigo.

Estrutura da rede pública avança, mas requer ajustes
A rede estadual de educação conta, hoje, com 215 intérpretes, distribuídos em escolas que tenham pelo menos um estudante com essa necessidade, de acordo com Cristina Oliveira, assessora técnica da Educação Especial da Secretaria Estadual da área (Seduc). “Eles fazem a mediação em sala, já que nem todos os professores sabem Libras”, reforça. O material didático, porém, “não tem adaptação, é o convencional”.

Além disso, segundo ela, o Estado oferece curso de Libras pelo Centro de Referência em Educação: “os professores são incentivados a fazer, mas não é obrigado”. A formação dos profissionais, então, “é o maior desafio”, ideia reforçada por Vivian Almada, supervisora do Núcleo de Educação Inclusiva e Diversidade da Secretaria de Educação de Fortaleza (SME).

803 alunos em estaduais
Entre surdos, surdo-cegos e deficientes auditivos, são mais de 800 alunos em escolas do Estado, 351 deles só na Capital. Caucaia e Maracanaú ocupam 2º e 3º lugares em matrículas, com 24 estudantes cada nessas condições.

“Tivemos seleção específica de profissionais com especialização ou conhecimento em Libras, muitos têm pós-graduação na área. Temos inclusive uma professora surda. E eles estão visitando escolas, expandindo o conhecimento em oficinas para os professores”, pontua. Segundo Vivian, o planejamento do ensino em instituições municipais com estudantes surdos é guiado pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE).

“No AEE em Libras, tanto é preciso trabalhar o atendimento ao professor, para que ele planeje as aulas, como para os alunos, no contraturno, para complementar o que ele ainda não compreendeu em sala”, explica.

Fonte: Diário do Nordeste

Comentários no Facebook