** Quer ficar por dentro das notícias primeiro? **
Acesse nosso canal no Telegram

Segundo as denúncias, os alunos chegaram a ter disciplinas canceladas por causa do problema

Estudantes surdos do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) vêm denunciando a falta de intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) durante as aulas.

Segundo as denúncias, os alunos chegaram a ter disciplinas canceladas por causa do problema.

De acordo com a professora substituta da UFPE Laura Freitas, os intérpretes contratados temporariamente alegaram ter vínculo somente com o nível médio e, por isso, só teriam a obrigação de atuarem na graduação.

Apesar da pressão feita por docentes e discentes, novas contratações não foram realizadas pela instituição até o momento.

“Essas disciplinas tiveram que ser realmente canceladas para o semestre inteiro. Todos os estudantes, incluindo os ouvintes, foram prejudicados”, falou Laura.
“A UFPE tem políticas afirmativas e precisa colocar no edital que aceita e recebe estudantes com diversos tipos de deficiências, só que precisa dar essas condições. O pessoal é aprovado, mas lá dentro não tem condições de ter o mesmo acesso à educação que os outros”, comentou.

A professora também falou a respeito da necessidade de se ter um intérprete durante as aulas para os estudantes surdos.

“Eles reforçam que português para todos esses colegas é uma língua estrangeira. A língua materna deles é Libras. Então é como se a gente estivesse assistindo todas as aulas em inglês ou em uma língua talvez mais difícil e a gente não tivesse acesso a um intérprete ou a um tradutor.”

Alessandro Vasconcelos, que é surdo, é um dos alunos afetados pela questão e comenta que o caso não é isolado.

“Três disciplinas foram suspensas, impossibilitando nossa participação nas aulas e prejudicando também estudantes ouvintes matriculados nessas disciplinas, incluindo aqueles que estão iniciando ou concluindo etapas importantes da pós-graduação”.

Segundo a professora, medidas mais drásticas podem ser tomadas pelo programa, como não ofertar vagas para pessoas com deficiência ou nem chegar a abrir matrícula para novas cadeiras.

“Isso chamaria pelo menos a atenção no edital da próxima seleção. Outra medida drástica seria não abrir é matrícula para nenhuma disciplina no semestre que vem. Alguma coisa que realmente chamasse a atenção da reitoria.”

Para Alessandro, o pedido por acessibilidade não pode ser considerado um privilégio. “Estamos reivindicando o cumprimento de um direito básico: o acesso à educação com acessibilidade linguística. Sem intérpretes de Libras, estudantes surdos ficam impedidos de acompanhar plenamente as aulas, participar dos debates acadêmicos e desenvolver suas atividades em igualdade de condições”, disse.

“Nossa expectativa é que a universidade apresente uma solução permanente e efetiva para que esse problema não continue se repetindo a cada semestre”, completou o estudante.

Segundo o coordenador do PPGL, Cleber Ataíde, o programa buscou o apoio de diferentes setores da universidade, como o Núcleo de Acessibilidade, a Diretoria de Ações Afirmativas, a Pró-Reitoria de Pós-Graduação, a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas e o Gabinete da Reitoria.

“Recebemos informações de que estavam sendo adotadas medidas para contratação de intérpretes, tanto em caráter emergencial quanto por meio de processos mais permanentes. Contudo, essas soluções não foram implementadas a tempo de atender às necessidades do semestre letivo”, explicou.

Em resposta à Folha de Pernambuco, a Universidade Federal de Pernambuco afirmou que acompanha a situação com atenção.

A UFPE explicou que a redução do número de profissionais se dá em razão da adesão dos servidores à greve dos Técnicos Administrativos em Educação (TAEs).

Uma reunião sobre o tema está prevista para ocorrer nesta segunda-feira (8) com a presença da reitoria e dos representantes estudantis.

Confira a nota da UFPE na íntegra:

“A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por meio da Diretoria de Ações Afirmativas (DAA) e do Núcleo de Acessibilidade (Nace), informa que acompanha com atenção a situação relacionada à oferta de interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras) para estudantes surdos do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL).

A UFPE reconhece a legitimidade das preocupações manifestadas pelos estudantes e reafirma seu compromisso com a garantia da acessibilidade comunicacional, condição fundamental para o acesso, a permanência e a participação plena da comunidade surda nas atividades acadêmicas.

No semestre letivo de 2026.1, a Divisão de Acessibilidade Comunicacional (DAC), setor responsável pelo gerenciamento e atendimento das demandas de interpretação em Libras na Universidade, enfrentou redução de sua capacidade operacional em razão da adesão da maior parte dos servidores Tradutores e Intérpretes de Libras (TILS) ao movimento grevista nacional dos técnicos administrativos em educação (TAEs).

Mesmo reorganizando as equipes disponíveis, com o reforço de bolsistas e de articulação com profissionais vinculados a outras unidades acadêmicas, não tem sido possível o atendimento integral de todas as demandas surgidas ao longo do semestre.

No caso específico do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), duas disciplinas ofertadas no turno da manhã e uma disciplina ofertada no turno da tarde tiveram sua execução comprometida pela indisponibilidade de intérpretes em número suficiente para garantir o atendimento adequado. Diante desse contexto e considerando o encerramento do semestre letivo, as disciplinas foram canceladas pelo programa.

A UFPE destaca que adotou medidas para ampliar a capacidade de atendimento da área de acessibilidade comunicacional tão logo foram identificados os impactos da redução do quadro de intérpretes disponíveis. Entre essas medidas, encontra-se em andamento um processo de contratação emergencial de profissionais intérpretes de Libras para os campi de Recife e Caruaru. Em razão dos prazos administrativos e da greve dos TAEs que também afeta outros setores, não foi possível concluir a contratação em tempo hábil para atender às demandas específicas do semestre letivo 2026.1.

A situação observada neste semestre é consequência de um quadro que vem sendo agravado ao longo dos últimos anos pelas universidades federais brasileiras no campo da acessibilidade. Desde 2018, com a publicação do Decreto 9.262, é vedada a realização de concurso público para o cargo de Tradutor Intérprete. Ao longo dos anos, além de não haver novos concursos, muitos servidores têm se aposentado, reduzindo ainda mais as equipes. 

Mesmo diante deste quadro, a UFPE reafirma seu compromisso com a acessibilidade, a inclusão e os direitos da comunidade surda, reconhecendo a importância do tema e trabalhando de forma contínua para ampliar sua capacidade de atendimento. A Universidade seguirá adotando todas as medidas institucionais possíveis para fortalecer sua política de acessibilidade comunicacional e garantir condições cada vez mais adequadas para a participação plena dos estudantes surdos em sua trajetória acadêmica.”

Fonte: Folha de Pernambuco

- Publicidade -