Polícia foi acionada após suspeita de agressão à idosa, que estava chorando e gesticulando muito nas ruas do Bairro João Paulo II.

MINAS GERAIS – Após perder a enfermeira e tutora com quem viveu por 45 anos depois de ser retirada do antigo Hospital Psiquiátrico Colônia em Barbacena, uma senhora surda de 82 anos foi encontrada chorando e gesticulando pelas ruas do Bairro João Paulo II, em Barbacena.

A situação fez com que algumas pessoas que passaram pelo local acionassem a Polícia Militar (PM) na terça-feira (14), acreditando que a idosa poderia ter sido agredida.

O mal entendido foi resolvido com a ajuda dos policiais e da intérprete Rosely Oliveira. A idosa, identificada como Maria Aparecida, não sabia falar em libras, mas através dos gestos conseguiu explicar o que estava acontecendo para a intérprete e afirmou que não estava sofrendo maus-tratos.

“Ela estava com muita saudade dessa tutora que cuidava dela, que morreu tem mais ou menos um ano e que tirou ela do Hospital Colônia. Atualmente, quem cuida dela é a filha dessa tutora, e as duas estão morando nesse novo bairro, onde as pessoas não as conheciam. Ela chorava muito. Maria Aparecida estava receosa, mas tirei meus óculos e minha máscara e ela me reconheceu, pois já havia traduzido para ela em outra ocasião e ela foi gesticulando e fazendo sinais, que fui interpretando e traduzindo para os policiais”, contou Rosely ao G1.

Os policiais conseguiram identificar o endereço da nova residência de Maria Aparecida e a levaram para casa, no Bairro João Paulo II. No local, estava a nova tutora, de 49 anos, filha da mulher que cuidou da idosa.

Os militares questionaram a mulher sobre possíveis agressões, mas ela negou. A PM afirmou ao G1 que realmente não há indícios de maus-tratos e que a nova tutora relatou que Maria Aparecida está mais confusa com o avanço da idade, com bastante dificuldade para se comunicar e que não sabe libras. A situação piora quando a idosa sente falta da antiga cuidadora e, por isso, às vezes sai pela rua e fica muito agitada.

Treinamento em Libras
Os policiais militares de Barbacena passaram por um treinamento para aprender libras com a Rosely. O entendimento da linguagem é extremamente importante para que agentes estejam preparados para lidar com ocorrências de pessoas com deficiência, promovendo maior inclusão.

O sargento Paulo da Matta, que participou da ação, afirmou que situações como a de Maria Aparecida acabam acontecendo já que a pessoa não consegue se comunicar e, por isso, fica muito agitada.

“A situação dos surdos merece atenção especial. O fato de termos lidado com a ocorrência da melhor forma possível, desfazendo o mal entendido, foi fruto do curso básico de Libras para agentes de segurança pública que fizemos recentemente. A Polícia Militar se mostrou mais uma vez pronta para servir e proteger qualquer cidadão”, ressaltou.

Rosely, que atua como intérprete desde 1993, afirmou que sempre se voluntaria para situações com pessoas surdas ou deficiência auditiva e de fala, que precisam de ajuda para se comunicar em Barbacena, seja dentro de delegacias, júris, escolas e demais atividades.

Hospital Colônia
O Hospital Colônia foi inaugurado em 1903 em Barbacena e foi a primeira instituição psiquiátrica do Estado.

A instituição está entre os mais emblemáticos episódios de violência contra a população com problemas mentais. Sem tratamento adequado, 60 mil pessoas foram mortas no Hospital Colônia, o que fez caso ser conhecido como “Holocausto Brasileiro”.

Foram décadas de pessoas aprisionadas de forma compulsória e sem critério, submetidas a maus-tratos. Muitos pacientes foram colocados nesta instituição pela própria família, como o caso de Maria Aparecida.

“Essa senhora foi colocada no Hospital por ser surda e a família abandonou”, explicou a intérprete Rosely. Uma funcionária que trabalhava no Colônia conseguiu na Justiça ser considerada tutora de Maria Aparecida e a levou para morar junto com ela, o que fez por 45 anos até falecer no ano passado.

No antigo hospital, foi instaurado o Museu da Loucura em 1996, que reúne textos, fotografias, documentos, objetos, equipamentos e instrumentação cirúrgica, que relatam a história do tratamento do paciente com sofrimento mental.

Fonte: G1

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