Iury ingressou no curso de Língua de Sinais Brasileira – Português como Segunda Língua em 2016. Em novembro de 2020, concluiu a graduação

A Universidade de Brasília (UnB) vai receber o retorno do seu primeiro aluno surdocego. Iury Moraes, de 28 anos, se formar na Universidade e, desta vez, vai cursar o mestrado profissional em Educação, onde desenvolverá um projeto de pesquisa sobre o ensino de português como segunda língua para surdocegos e outros grupos de pessoas com deficiências.

Iury ingressou no curso de Língua de Sinais Brasileira – Português como Segunda Língua em 2016. Em novembro de 2020, concluiu a graduação. A cerimônia de colação de grau foi realizada por videoconferência, em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Agora, ele será o primeiro aluno de pós-graduação surdocego. “Eu sinto que o mestrado vai ser maravilhoso, organizar os estudos, a metodologia da pesquisa”, conta Iury. “Também é preciso ter foco, participar dos debates, discutir propostas, vai ser muito especial”, espera.

As aulas estão previstas para começar no dia 6 de junho – e o programa já começou a se preparar para receber o novo estudante. Iury está aprendendo a utilizar o sistema braille e se comunica por Libras tátil. Ele já se reuniu com a Faculdade de Educação para discutir as adaptações necessárias.

“É preciso construir uma equipe de apoio, porque ele vai precisar de guia-intérprete”, explica a mãe do estudante, Elenregina Moraes. “Ele será orientado por uma professora que sabe língua de sinais, o que já é um grande avanço”, avalia ela.

SELEÇÃO
Para ingressar no mestrado profissional em Educação, o próprio processo seletivo foi adaptado para as necessidades do candidato: guias-intérpretes fizeram a tradução da prova escrita para a Língua Brasileira de Sinais, Iury respondeu as questões em Libras e os intérpretes transcreveram as respostas para a língua portuguesa. Na prova oral, a equipe de guias-intérpretes também atuou na mediação entre o candidato e a banca avaliadora.

De acordo com a diretora de Acessibilidade do Decanato de Assuntos Comunitários (DAC/Daces), Sinara Zardo, “a previsão de acessibilidade nos processos seletivos é garantida tanto pela Lei Brasileira de Inclusão quanto pela Política de Acessibilidade da UnB, mas essa foi a primeira vez que um estudante surdocego participou de um processo seletivo na pós-graduação da UnB e teve o apoio”.

Quando a notícia da aprovação saiu, a festa foi grande na casa de Iury: “Quando soube, eu celebrei, fiquei muito feliz. Compramos pizzas, abrimos uma champagne, eu gostei muito”, lembra o estudante. “É muito importante um surdocego ocupar esse espaço, abre uma nova possibilidade”, completa Iury.

ACESSIBILIDADE
A Política de Acessibilidade da UnB foi instituída em 2019, e estabelece medidas que devem ser adotadas no âmbito acadêmico e administrativo – entre elas, a própria adaptação de processos seletivos para ingresso de discentes com deficiência.

“Esse documento é um marco na garantia de direitos para os estudantes com deficiência, e tem afirmado a acessibilidade como um direito fundamental para o acesso, a permanência e a progressão dos estudos na educação superior”, avalia Sinara Zardo.

A diretora conta que atualmente existem outros três estudantes de graduação surdocegos na Universidade. “A presença de um estudante com deficiência na UnB redimensiona todo o processo de organização pedagógica, que precisa ter a acessibilidade como um princípio e um direito”, afirma.

“A participação de estudantes com deficiência em um contexto universitário não só qualifica as ações pedagógicas em termos de aprendizagem, como também auxilia no processo de aprendizagem dos outros estudantes que convivem com a deficiência e a diferença de um colega”, acrescenta a diretora.

PLANOS
Depois que concluiu o curso de Língua de Sinais Brasileira – Português como Segunda Língua, Iury ingressou em outra graduação: Letras – Português do Brasil como Segunda Língua (licenciatura), no Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas do Instituto de Letras.

No entanto, ele decidiu trancar o curso para se dedicar ao mestrado, tendo em vista seu objetivo maior: ser professor. “Eu quero ensinar quatro grupos de pessoas: surdos, surdocegos, pessoas com deficiência e ouvintes que saibam língua de sinais”, planeja.

Os planos para o futuro ainda incluem apoiar os projetos na Daces/DAC, trabalhar com audiodescrição e Libras. E para as pessoas com deficiência que gostariam de trilhar a carreira acadêmica, Iury encoraja: “Para todo esse grupo, eu quero falar: o mestrado é uma experiência diferente e precisa de acessibilidade. Eu já fiz outros vestibulares. Com acessibilidade? Não, muito ruins! Eu tive que lutar para conseguir”, conta o estudante. “Não podemos desistir nunca. Precisamos sonhar sempre, profundamente, para que esses sonhos se tornem realidade, é um direito nosso”, conclui o mestrando.

Fonte: Jornal de Brasília

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