Instituição teve telhado, forros, móveis e materiais didáticos atingidos; enquanto as obras avançam, 278 estudantes de diferentes municípios acompanham as atividades de forma remota
A reconstrução da Escola Alfredo Dub, referência na educação de surdos e instituição do segmento mais antiga do Rio Grande do Sul, entrou em uma nova fase após os danos provocados pelo ciclone que atingiu Pelotas em 7 de agosto. Há cerca de duas semanas, começaram os trabalhos de recuperação do prédio, que sofreu avarias principalmente no telhado e teve salas de aula comprometidas.
Parte da cobertura já foi refeita, e as novas telhas podem ser vistas sobre o edifício. No interior, entretanto, os estragos ainda são evidentes. Forros cederam, móveis foram danificados e materiais didáticos ficaram inutilizados após a entrada de água.
Segundo a diretora, Fabiane Carvalho Böhm, apenas duas das 13 salas de aula escaparam dos danos.
— Não foi só o telhado que o ciclone levou. Os móveis das salas também foram afetados. Das 13 salas, apenas duas não tiveram danos. Nas demais, a água atingiu materiais didáticos, armários e mesas — relata.
Comunidade mobilizada
Diante dos prejuízos, uma força-tarefa formada por integrantes da comunidade surda e voluntários passou a atuar na recuperação do espaço. Entre eles está Paulo Roberto Azevedo, presidente da Associação de Surdos de Pelotas (ASP).
A ligação de Paulo com a Escola Alfredo Dub começou na infância, quando estudou na instituição. Aos 60 anos, ele voltou à escola como aluno da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Para o estudante, participar da reconstrução é uma forma de retribuir a importância que a Alfredo Dub teve e continua tendo para a comunidade surda.
— Eu cresci estudando aqui, adoro a Alfredo Dub e nunca a esqueci. Agora, depois de mais velho, também retornei aos estudos. Por isso ajudamos na reconstrução. É uma questão de empatia e de retribuição — afirma.
Aulas remotas durante as obras
Sem previsão para retomar as atividades presenciais, os estudantes passaram a acompanhar aulas remotas. O modelo, porém, impõe desafios adicionais para quem depende da comunicação visual em Libras, principalmente pelo uso de telas pequenas e por problemas de conexão.
Darley Goulart Nunes, doutorando em Letras pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e ex-estagiário da escola, também participa dos trabalhos de recuperação.
— É muito difícil. Muitos alunos acompanham as aulas pelo celular, em uma tela pequena. Além disso, a internet oscila, trava ou desconecta, o que prejudica a comunicação entre professores e estudantes — explica.
A educação bilíngue, baseada no uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e da língua portuguesa, é uma das características da Alfredo Dub. Atualmente, a instituição atende 278 estudantes de diferentes municípios da região e de todas as idades.
Referência para a comunidade surda
Fundada há quase 80 anos, a Escola Alfredo Dub foi a primeira escola voltada para pessoas surdas no Rio Grande do Sul. Ao longo das décadas, consolidou-se não apenas como espaço educacional, mas também como local de convivência, identidade e pertencimento para a comunidade surda.
Esse papel ajuda a explicar a mobilização de ex-alunos, estudantes, familiares e voluntários na recuperação do prédio.
Fabiane afirma que a escola depende constantemente do apoio da comunidade para manter sua estrutura.
— A escola está sempre aberta a receber doações. Nós sobrevivemos do auxílio da comunidade para manter a estrutura física e atender nossos estudantes — diz.
Fonte: GZH









