Crianças e adolescentes surdos ainda encontram dificuldades para se comunicar nas escolas e nos serviços públicos de saúde, assistência social e proteção de São Leopoldo. Entre os principais problemas estão a falta de profissionais fluentes em Libras, a escassez de turmas bilíngues e o número insuficiente de intérpretes para atender todos os serviços e turnos.
A avaliação é da presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdedica), Maristel Brasil. O tema ganhou destaque nesta semana, quando entidades e instituições lembraram o Dia Mundial da Língua de Sinais.
Segundo Maristel, o Comdedica ainda não possui um diagnóstico formal sobre o atendimento oferecido a crianças e adolescentes surdos. A experiência das entidades e dos conselhos, porém, aponta barreiras que comprometem a autonomia e até a segurança desse público.
Atendimento ainda depende de acompanhantes e gestos
Na rede de ensino, a inclusão encontra dificuldades pela falta de profissionais fluentes em Libras e pela oferta reduzida de educação bilíngue.
Nos demais serviços, o problema também está presente. Conforme Maristel, a maioria das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), assim como o hospital, os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), não possui servidores fluentes em Libras.
“A comunicação acaba dependendo de acompanhantes ou de gestos informais, o que compromete a autonomia e o sigilo do atendimento”, afirmou.
A dependência de familiares ou terceiros pode impedir que a própria criança relate sintomas, explique uma necessidade ou comunique uma situação que não deseja compartilhar diante de outra pessoa.
Maristel destacou que a rede municipal de proteção não dispõe atualmente de intérpretes em quantidade suficiente para atender todos os serviços e horários.
Barreira pode atrasar socorro e provocar revitimização
A dificuldade se torna ainda mais grave em situações de emergência médica, violência ou outra violação de direitos. Sem uma comunicação acessível, a criança ou o adolescente pode não conseguir explicar o que aconteceu ou compreender as orientações recebidas.
“Quando uma criança ou adolescente surdo precisa denunciar um abuso ou solicitar socorro médico, a barreira comunicacional pode gerar revitimização e atraso no atendimento”, alertou a presidente do Comdedica.
Nessas situações, a rede recorre emergencialmente a intérpretes parceiros,, profissionais da Associação Vida Nova e professores que atuam na inclusão escolar.
Para Maristel, entretanto, a utilização de contatos emergenciais não substitui a necessidade de uma estrutura permanente nos serviços públicos.
Os principais gargalos identificados pelo Comdedica e pelo Conselho Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência (Comudepe) são o déficit de intérpretes e a necessidade de ampliar o ensino de Libras em toda a rede de garantia de direitos.
Associação Vida Nova é referência no município
A Associação Vida Nova mantém a única escola de São Leopoldo que inclui Libras como disciplina na grade curricular, segundo Maristel. A instituição atende estudantes surdos e pessoas com deficiência auditiva, além de oferecer oficinas abertas à comunidade.
A entidade também executa o projeto Mãos que Conectam, financiado pelo Fundo Estadual da Criança e do Adolescente (Feca). A iniciativa leva oficinas itinerantes de Libras para crianças e adolescentes atendidos por instituições parceiras do município.
No Comdedica, a sensibilização também ocorre de maneira prática. Ao final das reuniões plenárias, Maristel ensina alguns sinais em Libras aos integrantes do Conselho.
A presidente ressaltou, porém, que ações de conscientização precisam ser acompanhadas por políticas públicas contínuas, capacitação de servidores e ampliação do número de profissionais habilitados.
Conselho pode financiar projetos de acessibilidade
O Comdedica pode destinar recursos do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente a projetos de acessibilidade comunicacional apresentados pelas entidades.
Além do financiamento, o Conselho acompanha as políticas destinadas ao público infantojuvenil e cobra a inclusão permanente da Libras nos serviços municipais.
O Comudepe também participa desse trabalho, acompanhando políticas voltadas às pessoas com deficiência, com mobilidade reduzida e com altas habilidades ou superdotação.
Maristel reforçou que garantir comunicação acessível não se limita ao ambiente escolar. O atendimento em Libras precisa alcançar saúde, assistência social, órgãos de proteção e todos os espaços nos quais crianças e adolescentes exercem seus direitos.
Onde buscar atendimento e orientação
A Associação Vida Nova fica na Rua Padre Anchieta, 420, no bairro Cristo Rei. O contato pelo WhatsApp é o (51) 98142-8620. A instituição oferece ensino bilíngue, oficinas para a comunidade e projetos de inclusão.
Situações de violência ou violação de direitos também devem ser comunicadas aos Conselhos Tutelares de São Leopoldo.
O Comdedica acompanha as políticas municipais destinadas às crianças e aos adolescentes, enquanto o Comudepe atua na defesa dos direitos das pessoas com deficiência.
A data dedicada à língua de sinais motivou a discussão sobre as barreiras enfrentadas por crianças e adolescentes surdos em São Leopoldo.
Fonte: Berlinda








