Durante a pandemia do novo coronavírus, torcedores com deficiência auditiva estão tendo dificuldades para assistir jogos dos seus times do coração.

Após a paralisação e retomada dos campeonatos de futebol, as partidas estão seguindo com portões fechados e sem público. Essas medidas foram tomadas para frear o contágio e restringir as aglomerações dos estádios, sobrando apenas os jogos televisionados nas emissoras e transmitidos pelas rádios.

Apesar de a libras ter sido legalizada como a segunda língua do Brasil em 2002 por meio da Lei nº 10.436, a inclusão das pessoas com deficiência auditiva ainda é muito baixa no país. Nas transmissões dos jogos na TV, não existem intérpretes nas narrações, o que dificulta o entendimento dos surdos.

Além disso, a Medida Provisória 984, referente à transmissão dos jogos, tem modificado a cessão de direitos das emissoras, deixando partidas “às escuras”, como São Paulo e Athletico, que ocorreu na última quarta-feira (26). O jogo não foi televisionado, já que a Turner assinou com o time paranaense, mas não com o São Paulo, que era o mandante do jogo. A Globo decidiu não transmitir a partida, por ser contra a MP. Outros jogos do Brasileirão também estão sem televisionamento .

Em entrevista ao UOL Esporte, Alexandre Cavalcanti ,59 anos, deficiente auditivo e torcedor fervoroso do São Paulo, lamentou por não poder acompanhar a partida de seu time: “Meus amigos surdos estão tristes por não poder ir aos jogos nos estádios e mais tristes ainda por não passar na TV, apenas no rádio.” Ano passado, já havia acontecido a mesma situação com o torcedor, conforme o UOL Esporte noticiou.

“Eu tenho grupo do SPFC com 110 pessoas surdas, nos encontramos nas cadeiras do Morumbi para deficientes auditivos. Já está muito difícil acompanhar em casa sem meus amigos, eu vejo sozinho na TV e meu filho Fred, ouvinte, consegue me ajudar. Estamos bravos por não podermos assistir à transmissão do jogo.” Simone Ferreira, torcedora do Palmeiras, pontuou os obstáculos que os surdos enfrentam na hora de acompanharem os times, como a comunicação e a falta de acessibilidade. A mudança na pandemia afetou a forma com que os surdos se relacionam com os esportes no geral.

A jovem de 28 anos, que é bancária e atleta de handebol da seleção brasileira, idealizou na pandemia um projeto chamado “Crosslibras”. Apaixonada por crossfit, sua ideia é aproximar e incluir os surdos no ambiente esportivo, incentivando o aprendizado da língua brasileira de sinais nas academias.

Devido à pandemia, o uso das máscaras nos locais se tornou obrigatório e isso prejudica a leitura de lábios que os surdos utilizam para ajudar na compreensão do que está sendo falado. Por isso, Simone tem criado conteúdos digitais que ensinam as expressões dos movimentos utilizados no crossfit em libras.

Acessibilidade no meio esportivo Vinicius Schaefer, professor universitário e pré-candidato a vereador de São Paulo, ressaltou a importância da acessibilidade no meio esportivo e a democratização do acesso à cultura: “Deixamos de ter o esporte como entretenimento, assim como outras atividades. Passamos por uma mudança jamais imaginada em nossas vidas. Tivemos que nos adequar em diversos momentos e ainda estamos nos adequando em nosso cotidiano.

“Perdemos muitas informações durante a nossa vida por conta da falta da audição. Como os cegos por conta da falta da visão. Nos jogos, não é diferente. O comentarista relata em português, até que o surdo entenda o significado de uma ou outra palavra para em seguida receber a próxima informação, já perdeu algo, ou seja, a narração fica fragmentada. Ao passo que com a ajuda do intérprete de libras, aquele que fala a nossa língua, propicia o entendimento de todo o contexto, sem que se perca nenhum momento do jogo”, completou o pós-graduado em gestão pública.

Fonte: SPNet

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