Em comemoração ao Dia Nacional da Educação de Surdos, nesta terça (23), conheça as incríveis histórias dos professores Adriana e Marco Antonio.

Adriana Horta tem 48 anos e já nasceu surda. Marco Antonio Alves, com 42, perdeu a audição aos 15 em consequência de uma meningite. Em comum, além das dificuldades que os deficientes auditivos enfrentam em uma sociedade ainda carente de acessibilidade, os dois têm a paixão por ensinar. Mesmo que, durante muito tempo, tenham se deparado com o pior dos silêncios: aquele vindo de quem mais precisava aprender a escutar o que eles tinham a dizer.

“Até hoje, desde os 15 anos, após ter ficado totalmente surdo, voltado a escutar um pouco, virar professor… Nunca um familiar, um colega de rua, me perguntou um sinal de Libras. ‘Marco, o que você faz na escola? Marco, o que é Libras? Como você fala?’. As pessoas não têm interesse”, diz o professor, que se reveza entre as aulas na Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos (EMEBS) Anne Sullivan, na zona Sul de São Paulo, e o trabalho em uma instituição bancária.

Por isso, este 23 de abril, data na qual se comemora o Dia Nacional da Educação de Surdos, tem tamanho significado para eles. “Eu tenho muito orgulho de ser uma professora surda. A inclusão social significa que, no futuro, queremos médicos que saibam conversar em Libras, psicólogos, enfermeiros. O surdo não precisa ficar dependente para o resto da vida”, afirma Adriana, que lecionou durante 16 anos na Anne Sullivan e hoje capacita professores a trabalharem com surdos.

“Antes, o surdo era ignorante, passivo, influenciável. Agora, é protagonista, capaz de se comunicar, ele se torna um bom profissional, é capaz de estudar, de se desenvolver. O desafio é acabar com o preconceito”, alerta a professora.

Atualmente, a Rede Municipal de Ensino atende 1.277 alunos surdos, dos quais 641 estão matriculados nas seis EMEBS espalhadas pela capital, 126, nas chamadas Unidades Polo, e 510, incluídos em classes comuns. Já na Saúde, além dos atendimentos habituais nas unidades do município, há centros especializados em reabilitação que fazem diagnóstico, dispensam aparelhos auditivos, promovem terapias a acompanham os usuários.

Libras é língua oficial do Brasil desde 2002
Um passo importante na jornada dos surdos foi o reconhecimento, em 2002, da Libras, ou Língua Brasileira de Sinais, como a segunda língua oficial do país. Antigamente, os surdos precisavam aprender “na marra” o português, em processo chamado de oralização.

“Na época, nos anos 70, o objetivo era estimular o surdo na oralização, havia uma cobrança. Quando ingressei na escola, foi bem difícil no início. Eu tinha treino de fala, leitura e escrita. Era falho, não entendia nada. Escrevia e errava. Falava errado. A fono era cara, a família não tinha como arcar. Então, minha mãe aprendia o treino fonoarticulatório e ensinava os três filhos”, explica Adriana, que tem dois irmãos surdos como ela.

A Libras propicia maior independência e a capacidade de se fazer entender. No caso do professor Marco Antonio, isso só viria a acontecer 14 anos depois de ele ter perdido a audição, quando já tinha 29. “Foi quando aconteceu meu contato com o mundo dos surdos. Até aquele momento, para mim, ser surdo era não escutar e falar. Se escrevessem em um papel o que estavam falando, tudo bem. Senão, perderia a conversa. Na escola, pude conhecer não só a Libras, mas outras vidas, outras histórias, outra cultura, a cultura surda”.

Falta, agora, o outro lado, ou seja, os ouvintes estarem dispostos a escutar. Para isso, Marco faz um pedido: “Para você que tem um familiar surdo, procure ficar mais perto, conhecer o mundo dele, viver com ele, aprender a língua, Libras, para poder falar o que você sente e para saber o que ele sente”. Uma lição para toda a vida, afinal.

Fonte: http://www.capital.sp.gov.br/zeo-capital.sp.gov.br/prefeitura/noticia/precisamos-aprender-a-ouvir-o-que-os-surdos-tem-a-nos-dizer

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