Projeto criativo de língua brasileira de sinais é capitaneado por dois acadêmicos e se baseia em expressões faciais

Identificação e representatividade significam muito. Esta é a ideia por trás do projeto HQs Sinalizadas, que apresenta histórias em quadrinhos não em português, mas em Libras, a Língua Brasileira de Sinais.

HQs Sinalizadas surgiu na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e é capitaneado por dois acadêmicos: a pós-doutora Kelly Priscilla Lóddo Cezar, professora adjunta do curso de licenciatura em Letras Libras, e o professor Danilo Silva Knapik, mestre e doutorando, professor efetivo do mesmo curso.

A ideia nasceu durante uma semana acadêmica realizada em 2016, quando os professores surdos Knapik e Suellen Floriano apresentaram uma palestra sobre os artefatos culturais do povo surdo. Na plateia, estavam a professora Kelly e Luiz Gustavo Paulino de Almeida, desenhista e aluno do curso de Letras Libras.

A professora Kelly convidou, então, Almeida para pensarem juntos em quadrinhos para a comunidade surda. O desafio era esse: sabiam que haveria uma necessidade de adaptação – afinal, os leitores não tinham o português como primeira língua, mas Libras.

A dupla queria que o leitor não ouvinte se interessasse pela história a ser narrada em quadrinhos e perceberam que, para isso, trocar a comunicação de português para Libras era um bom passo, mas não o suficiente. Iniciaram, então, um trabalho de pesquisa que resultou em detalhes preciosos para o público-alvo, como expressões faciais mais facilmente identificáveis e menos texto escrito.

“Organizamos um gênero híbrido em que articulamos vídeos, ilustrações, redução da linguagem verbal escrita, intensificamos as expressões faciais dos personagens e escolhemos uma temática de muito sentido para a comunidade”, conta a professora Kelly Cezar. O primeiro fruto do projeto saiu em 2018: a HQ O Congresso de Milão.

O HQs Sinalizadas não se resume a narrar histórias em Libras, mas também a fazer com que as HQs cheguem ao público-alvo – todas estão disponíveis gratuitamente como e-books no site da Letraria (www.letraria.net).

Libras não é a única linguagem usada por surdos aqui no Brasil: há, pelo menos, 13 línguas de sinais documentadas no País. O quinto livro do HQs Sinalizadas, lançado no ano passado, é narrado na língua terena de sinais. A edição impressa vem com o título maior em terena: Séno Mókere Káxe Koixómuneti – o título em português, Sol: A Pajé Surda, aparece logo abaixo.

“O Brasil é um país plurilíngue, inclusive nas línguas de sinais, mas muitas pessoas desconhecem esse fato”, comenta a professora Kelly.

Projeto de pesquisa desenvolvido dentro da universidade, o HQs Sinalizadas inclui alunos que realizam iniciação científica e atividades congêneres. A escolha do tema, parte fundamental do processo, passa por eles.

“Os alunos são livres para escolher a temática, desde que tenha representatividade para a cultura e garanta a língua de sinais como primeira língua”, observa ela.

Uma vez escolhido o tema, a HQ pode levar até três anos para ficar pronta – tempo que inclui do levantamento bibliográfico a revisões, inclusive uma feita por sinalizantes (os que utilizam a língua de sinais, normalmente, os surdos).

Um exemplo de tema foi uma história ambientada nas Surdolimpíadas, evento multidesportivo internacional organizado desde 1924 pelo Comitê Internacional de Desportos para Surdos. A HQ, escrita por Addyson Celestino, Kelly Priscilla Lóddo Cezar e Clovis Batista de Souza e ilustrada por Addyson Celestino, foi lançada em 2020.

“A parte mais trabalhosa é a criação do roteiro sinalizado (voltado para a comunidade surda), verificação da temática e análise das ilustrações sinalizadas nos quadrinhos”, explica a professora.

“A gramática dos quadrinhos sinalizados passa pela análise linguística das expressões faciais, da configuração de mãos, movimento e ponto de articulação, bem como a verificação por parte dos sinalizantes da língua de sinais estudada. Em média, essa etapa demora dois anos. Depois, vem a parte de diagramação e articulação dos vídeos em Libras.”

Fonte: Terra

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