A nova língua, chamada Cena, chamou a atenção de pesquisadores do Brasil e do exterior. Em Várzea Queimada, comunidade de 900 habitantes, uma em cada vinte e cinco crianças nascem com surdez.

Os moradores da pequena Várzea Queimada, na zona rural de Jaicós, criaram uma língua de sinais própria, usada tanto por pessoas surdas como pelos ouvintes. Na cidade há um alto índice de pessoas surdas de nascença. A nova língua, chamada Cena, chamou a atenção de pesquisadores do Brasil e do exterior.

Na comunidade, de 900 habitantes, uma em cada vinte e cinco crianças nasce com surdez. Segundo a pesquisadora Karina Mandelbaun, doutora em genética pelo Hospital das Clínicas de São Paulo, é a genética que explica esse fenômeno.

O isolamento da comunidade fez acontecer uma alta quantidade de casamentos entre primos. Assim, os genes que causam a surdez foram bastante replicados em Várzea Queimada.

“Esse material genético, ele contém lá instrução para fazer todo o nosso corpo, desde a cor do nosso cabelo, da nossa altura, e também ele tem esses defeitinhos que podem levar a alguma doença”, disse a pesquisadora.

Dos seis filhos da dona de casa Silvana Luzia, três nasceram surdos. Segundo ela, as crianças aprenderam naturalmente na comunidade a nova língua.

“Foi difícil, mas consegui. Porque é uma regra que eles vão aprendendo, aprendendo, até adaptar. Foi difícil, mas deu para entender. Eles já sabem comunicar todas as Cenas”, relatou.

Tanto surdos como não-surdos se comunicam usando a Cena em situações cotidianas, como ir à igreja, comentar sobre o calor, fazer compras nos mercadinhos da comunidade. E, se alguém ainda tem dificuldade em usar a língua, as outras pessoas ajudam.

O comerciante José Henrique contou que aprendeu a língua naturalmente, apesar de não ser surdo. “Tem muitos mudos que são ‘intelectual’, que sabe se comunicar bem com a gente. Tem outros que têm problema e dificuldade. Mas é tranquilo, a comunidade é adaptada para esse tipo de situação”, contou.

Há cinco anos, pesquisadores da área de linguística da Universidade Federal do Delta do Parnaíba pesquisam as origens e o desenvolvimento da língua de sinais do povoado.

De lá pra cá, foram registradas quase 300 expressões utilizadas pela comunidade. A pesquisa está ganhando forma em um dicionário. As palavras e expressões são registradas com fotos.

“A ideia de se criar um dicionário é para valorizar a língua desse povo, fazer com que as gerações futuras tenham acesso a esse material, esse registro, e fazer com que outras pessoas também conheçam a Cenas, uma língua de sinais genuinamente piauiense”, comentou o pesquisador Anderson Almeida, da UFDPar.

Segundo Anderson, a língua tem 70 anos de idade: é portanto uma língua jovem. “A Língua Brasileira de Sinais (Libras) tem, só nos registros que sabemos, mais de 150 anos. Então, por exemplo, na Libras nós temos um alfabeto, em Cena nós não temos alfabeto. Na Libras nós temos um sistema numérico. Em Cena, nós não temos um sistema numérico”, disse.

A Cena chamou atenção também de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. O pesquisador e doutor em linguística Andrews Newins tenta fazer um paralelo entre o caso brasileiro e o de outras duas comunidades, localizadas em Israel e na Turquia, onde os surdos também desenvolveram sua própria forma de se comunicar.

Para o pesquisador, estamos diante de uma nova língua, genuinamente piauiense. “Acredito que isso vai fazer parte de uma grande comparação internacional que estamos no processo de fazer, de comparar os mesmos vídeos, as mesmas sinalizações entre essas línguas, para ver de fato se tem o que se chama uma ‘evolução paralela’. É uma língua nova, completamente inédita e completamente diferente de Libras”, explicou.

Fonte: G1

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