Para Edinho Santos, não tem essa de impossível. Toda poesia em português pode virar poesia em Libras, a Língua Brasileira de Sinais. “Vou traduzindo, mostrando o protagonismo surdo”, explica, passando a mão pelo peito e levantando a aba vermelha do boné para se deixar ver melhor. À toa. Nada parece fazer sombra a esse educador, ator, produtor de eventos, slammer e ativista preto.

Sua tradução de poemas, por exemplo, não passa invisível. Cativou quem passou pela exposição do poeta contemporâneo Manoel de Barros, no próprio Itaú Cultural, na Avenida Paulista, em fevereiro de 2019. No videoguia, ele concretizava liricamente “O Apanhador de Desperdícios”: “Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. / Porque eu não sou da informática: / eu sou da invencionática. / Só uso a palavra para compor meus silêncios”.

Aos 35 anos, Edinho também produz versos de próprio punho. Contextualiza por que escolheu a poesia como uma de suas veias de expressão. “Sou negro, surdo, periférico, muitas barreiras nessa caminhada, mas a poesia me salvou.” Continua a conversa com uma analogia digestória. É como se pegasse todas as exclusões que viu e sentiu, todas as brincadeiras racistas e preconceituosas que tentou deixar pra lá, as colocasse num liquidificador, internalizasse essas referências e as transformasse em arte de resistência.

Um de seus poemas mais reproduzidos é “Mudinho”: “Quando eu era pequeno / diziam: ‘mudinho, mudinho, mudinho’/ Eu um pouco grande nem tanto / e eles: ‘mudinho, mudinho, mudinho’ / Eu já homem feito e barbado / e eles: ‘mudinho, mudinho, mudinho’ / Me casei, tive filho / e eles: ‘mudinho, mudinho, mudinho’ / Eu envelheci, me cansei, me curvei / e eles: ‘mudinho, mudinho, mudinho’ / Mudinho? Não, meu nome é Edinho, porra”.

No RG está Edvaldo Carmo dos Santos. Criado em Cidade Ademar, distrito periférico da zona sul de São Paulo, o garoto foi estruturando sua identidade desde cedo. Era o caçula de quatro filhos, conseguia se comunicar no básico com a família, mas se incomodava quando os irmãos começavam a tagarelar em turma e se esqueciam de sua surdez de nascença. “Quando eu perguntava sobre o que estavam falando, diziam: ‘A gente vai te passar um resuminho’.

A comunicação fluía nos jogos de futebol e entre os pares surdos, então incorporou as duas frentes. Mas quem de fato lhe abriu novas várzeas foi a mãe: “Não adianta te prender, vá descobrir o que quer fazer”. Edinho entende a liberação como bênção. Vê com olhos críticos a superproteção familiar e da sociedade em geral diante dos deficientes, e ao mesmo tempo valoriza os limites e conselhos que aprendeu com os surdos mais velhos.

Perder-se para se encontrar
“Gosto da sensação de estar perdido, no sentido de estar num lugar que não conheço, entender o espaço e achar uma rota.” Edinho faz leitura labial, e isso facilita a movimentação, mas não é seu único recurso de independência. Sempre chega antes aos locais, estuda o cenário, prepara-se para imprevistos. Lembra quando desconfiou de uma troca de portão de embarque num aeroporto espanhol. Ele intuiu que havia sido dado um aviso sonoro importante observando a reação das pessoas, passou a tentar ler os bilhetes de embarque de outros passageiros para ver se eram seus companheiros de voo e seguiu o grupo certo até o novo portão. Está sempre de prontidão.

Aos 13 anos, Edinho se perdia propositalmente nos museus. A semente pela arte-educação brotou numa parceria da sua escola com um projeto que formava educadores surdos. Ali começou a perceber que tinha muitas responsabilidades por ser quem era: negro e surdo, nessa ordem. “A primeira coisa que veem é um homem negro, não enxergam de imediato a minha surdez.”

Mas seu ativismo, afirma ele, faz intersecção entre os dois assuntos. Por isso quer aproveitar a entrevista ao TAB para apontar o prejuízo aos surdos com o fechamento recente de escolas bilíngues, onde a língua de comunicação, ensino e interação é Libras, enquanto o português escrito domina os materiais de instrução. “Na escola de inclusão, além de o surdo aprender português e não Libras, é apenas ele entre 30 alunos ouvintes numa sala, então é óbvio que o professor não vai lhe dar atenção devida, vai manter o hábito de falar de costas para os estudantes, e isso prejudica muito o aprendizado do surdo.

No Itaú Cultural, quando das visitas de crianças com deficiência auditiva, Edinho acha tocante ver a reação delas diante da sua mediação. “Mas você é surdo?”, perguntam, de olhos estatelados entre si e na direção do poeta. Estão habituadas a explicações dadas em português, perpassadas em seguida por um intérprete de Libras. “Estar lá e ser referência é mostrar que um surdo pode ser educador, médico, o que quiser”, orgulha-se Edinho.

Pesquisa divulgada em 2019 pelo Instituto Locomotiva contabilizou cerca de 10,7 milhões de deficientes auditivos no país. A maioria são homens (54%) na faixa dos 60 anos ou mais, sem condição financeira — eles e elas — de acesso aos aparelhos auditivos. De todos que apresentam deficiência auditiva severa, 15% nasceram surdos. Somente 7% do total possui ensino superior completo (Edinho fez Pedagogia) e 32% não têm nenhum grau de instrução. Dois em cada três sinalizam dificuldades em situações do cotidiano e 63% não conseguiram se inserir no mercado de trabalho.

Edinho também surpreende quando media visitas com público majoritariamente ouvinte. “Quando chegam, a intérprete se posiciona, eu começo a falar em Libras, e é aquele choque. ‘Como assim, eu vou fazer visita com um educador surdo?'” A situação acaba mostrando que a intérprete está ali não para auxiliar Edinho, mas para ajudar os visitantes, que não sabem sua língua.

A pandemia alterou a feição de alguns eventos que ele organizava. O Festival Setembro Azul, que desde 2018 trazia presencialmente artistas surdos, virou neste ano o Festival de Cultura Surda, ocorrido dois meses depois, em novembro, que colocou em Zoom artistas, comediantes, produtores, poetas e influenciadores digitais, todos surdos. O projeto Olhares Poéticos, que ele protagonizava no térreo do prédio da Avenida Paulista todo terceiro fim de semana de cada mês, agora é virtual, com Edinho performando poesias.

Em 2017, como ator, ele integrou o elenco de “O Matador”, primeiro longa-metragem brasileiro de ficção produzido pela Netflix, um faroeste ambientado no sertão pernambucano. No mesmo ano participou do Slam SP, Campeonato Estadual de Poesia Falada, classificando-se entre os cinco melhores de São Paulo e conquistando vaga para o Slam BR. “As batalhas exigem muito estudo, muito repertório, amo a poesia marginal”, diz.

Seu estilo é falar sobre o que está acontecendo, ou sobre o que não está. A entrevista para o TAB se fez com Edinho fazendo tudo em casa, na Cidade Ademar. Contou com a ajuda da intérprete Claudia Ferreira dividindo uma das janelas da videoconferência. Perto dele dormia o filho de 3 anos, fruto de sua história com a brasiliense Nayara Silva, poeta, performer, educadora em Libras, representante da mulher negra surda. Edinho tem um menino mais velho, de 5 anos, de outro relacionamento.

Foi sentado num ambiente caseiro, sofá sem encosto, boné em riste e depois ao contrário, que ele gravou outro poema de existência e resistência, postado no Facebook em janeiro:

“Sou negro e não sou seu negro negreiro / Negro negreiro foi feito por branquela / Vai pensando que sou escravo / Não aceito me ver como animal / Tenho cabeça e olho e recebo informação todo dia / E não vou ficar batendo biela / Nunca vou esquecer 80 tiros cheio de buraco / Nós somos resistência, podem todo dia / A gente duela.”.

Mudinho from Slam do Corpo on Vimeo.

Fonte: BOL – Entretenimento

 

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