De acordo com os estudantes, 4 pessoas de cursos distintos do IFCE carecem de intérprete nas aulas no campus de Fortaleza. Instituto reconhece que os dois profissionais do local estão em regime de trabalho extenuante.

CEARÁ – A turma do 1º semestre do cursos de Artes Visuais o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), em Fortaleza, decidiu, em protesto, interromper as aulas sempre que não tiver intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) para o estudante surdo Henrique Sousa.

De acordo com os estudantes, 4 pessoas de cursos distintos e horários semelhantes carecem de intérprete nas aulas no campus de Fortaleza. No entanto, há somente 2 profissionais que se revezam para atender ao público da instituição.

O estudante Henrique explica que quando ingressou no IFCE “estranhou bastante o ambiente”. Ele reitera que número de intérpretes não é suficiente e reforça que esse é um trabalho que precisa de revezamento porque demanda muito do físico do profissional.

A coordenadora do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas (NAPNE) do IFCE, Lucineide Penha Torres de Freitas e a vice-coordenadora do NAPNE, Nádia Maria, reconhecem que os intérpretes estão em regime de trabalho extenuante, visto que no campus Fortaleza há apenas dois servidores tradutores intérpretes de Libras atuando nos cursos de Artes Visuais (matutino), Licenciatura em Matemática (vespertino) e Guia de Turismo (noturno), dentro de sua carga de 8 horas diárias.

As servidoras dizem que as medidas para superar as dificuldades precisam partir de instâncias superiores, dentre elas, decisões de contratação de profissionais, mas com o Decreto nº 10.185/2019, publicado pelo Governo Federal em dezembro de 2019, “não há mais possibilidade de abertura de concursos públicos pois os cargo de Intérprete de linguagem de sinais está vedado para abertura de concurso público e provimento de vagas adicionais.”

Solidariedade
A estudante Michele Veras de Sousa relata que Henrique sente-se prejudicado sempre que a aula ocorre e não há intérprete para auxiliá-lo. “Não é culpa dos intérpretes. Eles estão cansados, sobrecarregados e fazem o possível. Mas para atender aos outros precisam faltar e a gente percebe que o Henrique fica prejudicado. Eu tento ajudar porque tenho noção básica de Libras. Tento fazer a tradução básica”, afirma.

A turma deles tem originalmente 35 alunos, e junto aos outros semestres chega a ter 50. Mesmo com os obstáculos, há empatia. “Teve atividades que os professores passaram e o Henrique não conseguiu fazer. Mas fizemos vídeos explicando a ele e ele conseguiu”. Os alunos também criaram um grupo no whatsapp e tentam conversar em Libras suprimindo artigos, preposições e conjunções para garantir a inclusão de Henrique.

Ministério Público Federal
No dia 4 deste mês, Ministério Público Federal (MPF) foi acionado devido ao número insuficiente de intérpretes Libras nas salas de aula para auxiliar alunos surdos. O MPF acolheu a representação registrada formalmente pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos. Na última quinta-feira (12), o MPF expediu um ofício para a reitoria do IFCE dando um prazo de 10 dias para que a instituição se manifeste sobre a representação feita pela Federação.

Henrique garante ainda que as ações da turma buscam garantir os direitos da comunidade surda.

“Preciso ter meu direito garantido em Libras. Precisamos ter uma equipe que dê conta desse serviço”, diz o estudante.

O estudante do curso do 2º semestre de Guia de Turismo, Weverson Valdivino Saboia Martins também é um dos prejudicados pelo número insuficiente de intérpretes.

Segundo o aluno, “essas visitas técnicas são obrigatórias para minha formação de guia. Além disso, também faço outras atividades aqui (no IFCE) como natação e não compreendo o que a professora diz. Sinto meus direitos de estudante serem cerceados devido à falta de acessibilidade”, pontua.

Fonte: G1

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