Necessárias para impedir a disseminação do coronavírus, as máscaras atrapalham a comunicação dos surdos com pessoas que não dominam a língua de sinais.

Pense em Charles Chaplin: os filmes estrelados pelo ator não tinham som, mas ele usava tão bem as expressões faciais e corporais que o público conseguia entender sem espaço para dúvidas o que seus personagens estavam pensando ou querendo comunicar. Todo mundo – em maior ou menor grau dependendo da cultura, por exemplo – usa o corpo para se comunicar, mesmo sem perceber. E qualquer língua falada usa as expressões faciais como complemento à comunicação verbal.

– Mas as pessoas surdas estão especialmente acostumadas a usar expressões faciais e corporais para entender o que está sendo comunicado pelas outras pessoas, principalmente aquelas pessoas que não dominam a língua de sinais – explica o professor Deonisio Schmitt, chefe do Departamento de Libras da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). – Os olhos e a boca, principalmente, ajudam muito os surdos a entender o que está sendo dito.

Com a pandemia de coronavírus, então, a comunidade surda se viu diante de um desafio adicional: as máscaras, que cobrem boa parte do rosto das pessoas e interferem na comunicação.

– Por trás da máscara, é mais difícil entender o que está sendo dito, principalmente porque fica impossível ver os lábios do interlocutor – comenta Deonisio. – Isso tem atrapalhado a vida das pessoas surdas no mundo inteiro. Claro, nós sabemos que as máscaras são necessárias. Mas por exemplo, se você vai a um mercado, uma farmácia, uma loja, os atendentes estão todos de máscara. Eles tentam se comunicar por meio da voz, e os surdos não conseguem fazer a leitura labial para entender o que está sendo dito.

Minha conversa com o professor, aliás, aconteceu por meio de uma chamada de vídeo – e com a ajuda dos intérpretes Laís Benedetto, Thuanny Galdino e Carlos Grahamhill, que traduziram o português para Libras, e vice-versa. Deonisio é surdo; e, além de trabalhar com a língua de sinais e a cultura da comunidade surda, sente esse tipo de dificuldade no próprio cotidiano.

Aliás, uma observação importante: a comparação com Charles Chaplin, feita no primeiro parágrafo do texto, é do próprio Deonisio, e ilustra bem o quanto a linguagem corporal é relevante na comunicação humana. Mas é essencial destacar que a mímica feita pelo ator e cineasta está longe de ser a mesma coisa que a língua de sinais usada pelos surdos: esta é uma língua formal, com gramática, com fonologia. As expressões faciais e corporais são complementos dos sinais que formam de fato uma língua, a língua usada na comunicação das pessoas surdas.

O professor conta que, com as medidas adotadas para impedir a disseminação do coronavírus, muitas pessoas começaram a adaptar as próprias máscaras, em casa ou em pequenas empresas – criando máscaras com materiais transparentes, como plástico, por exemplo; que, ao mesmo tempo, permitem a proteção de quem usa e de quem está por perto, e não impedem a comunicação com os surdos.

– A comunidade surda teve essa iniciativa porque sente na pele a dificuldade pela qual está passando nesse momento e a necessidade de ter uma máscara mais adequada – Deonisio afirma.

Em relação à dificuldade que os surdos quase sempre encontram quando precisam se comunicar com quem não faz parte de seu círculo familiar ou de amigos – como no caso das idas ao supermercado ou à farmácia, citadas anteriormente -, Deonisio declara:

– Seria ideal que as pessoas ouvintes da comunidade em geral aprendessem a língua de sinais, para que houvesse uma efetiva integração entre surdos e ouvintes. É preciso valorizar mais a língua de sinais, assim como a cultura e a identidade surda.

Quando pergunto qual seria o caminho para isso, ele responde:

– É uma boa pergunta. De modo geral, faltam cursos de Libras no Brasil. É importante que a própria comunidade surda se una e forme parcerias com associações, instituições, com a própria UFSC; para que a cultura da comunidade surda seja valorizada e mais pessoas aprendam a língua de sinais. A garantia dessa acessibilidade é muito necessária. E esse momento de pandemia tem dificultado ainda mais as coisas: os cursos presenciais de Libras da UFSC, por exemplo, não estão acontecendo por enquanto.

O professor cita como exemplos iniciativas desenvolvidas no próprio Departamento de Libras: para 2021, Deonisio está desenvolvendo um projeto de extensão que tem o objetivo de ajudar determinadas instituições a trabalhar melhor a acessibilidade em relação à comunidade surda – presídios, supermercados, a polícia civil, a polícia militar. Por enquanto o projeto está parado, pelo fato de que as aulas presenciais na UFSC estão suspensas, mas a ideia é retomar assim que possível.

Em determinado momento da nossa conversa, o professor Deonisio Schmitt cita uma frase de um autor desconhecido: “Surdos ouvem com os olhos e falam com as mãos.” As máscaras tornaram mais difícil ouvir com os olhos; e, infelizmente, nem todo mundo sabe e entende a língua que permite falar com as mãos. Nesse contexto, os obstáculos enfrentados pela comunidade surda são ainda maiores que os habituais – e mostram que ainda há um longo caminho a percorrer até alcançarmos, todos, uma sociedade mais inclusiva e plural.

Fonte: NSC Total

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