Projeto criado por jovem de 17 anos funciona como uma ONG para ensinos educacionais. Iniciativa começou há 3 anos e atualmente conta com mais de 250 estudantes.

Olhe o espaço ao redor. Você consegue ouvir tudo, certo? Mas, se não conseguisse? Como seria para escutar a aula, para cumprir as tarefas do trabalho ou outras atividades? Mais do que isso, quantos surdos existem nos espaços onde você habita? A falta de inclusão e acessibilidade para os surdos faz com que eles se tornem “invisíveis”. Com o objetivo de tornar a Língua Brasileira de Sinais (Libras) mais acessível à população, Huan Lucas, de 17 anos, criou um projeto voluntário de educação e cultura de libras em Caruaru, no Agreste de Pernambuco.

A Oficina de Libras, como é chamada a iniciativa, existe há 3 anos e começou no estacionamento de uma escola pública do município. Foi vendo um intérprete de libras durante uma propaganda eleitoral que Huan se encantou pela língua e começou a estudar. Ele tinha apenas 14 anos e havia terminado um curso para atualização em libras quando começou a ensinar aos colegas de classe a língua.

Vendo o empenho que ele tinha para ensinar, a coordenadora pedagógica da Escola de Referência em Ensino Médio Arnaldo Assunção o convidou para formalizar a ação como um projeto da instituição. “No início de 2017 estávamos na transição de informalidade para a formalidade e no mesmo ano abrimos as turmas para toda a escola. Foram 80 pessoas inscritas logo na primeira turma”, relembra o estudante de Letras.

 

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Equipe Oficina de Libras 💙 I Ação Setembro Azul – CMAL #setembroazul #aprendaLibras

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As línguas não são produzidas apenas por um canal de comunicação, pelo contrário, vários elementos se unem para complementar uma comunicação. O tradutor e intérprete de Libras Otávio Silva destaca que no caso da libras ela é produzida por canais manuais, corpóreos e faciais, chamado de língua espaço-visual. “Além de ser formada por vários elementos, a língua também não possui conectivos como artigos e preposições que são usados na língua portuguesa”, complementa.

“A Libras é uma língua não é linguagem, então se ela é língua ela é viva, tem mudanças, alterações, regionalismos”, pontua Huan.

O projeto
A Oficina de Libras oferece três níveis básicos de aprendizado e tem duração de um ano e meio, equivalente a 120 horas-aula. Segundo o idealizador do projeto, os professores que ministram as aulas são formados dentro do próprio curso. Quando os alunos se formam, a Oficina de Libras abre um processo seletivo para que os interessados participem.

“A seleção se dá para o administrativo com o pessoal da secretaria, para a equipe de mídia, e para equipe de orientação de ensino. A equipe de orientação de ensino faz uma prova prática no qual eles têm que mostrar proficiência na língua para uma banca avaliativa e essa banca é composta por mim [Huan], intérpretes de libras e por surdos, além de uma prova com 40 questões”, diz o idealizador.

‘Oficina de Libras’ é desenvolvido há três anos

A iniciativa cresceu e hoje conta com 250 alunos e 18 membros que trabalham como instrutores, secretários e gerenciadores de mídia para o projeto acontecer. A ideia é voluntária e funciona como uma Organização Não Governamental (ONG) para ensinos educacionais atuando na Casa do Trabalhador, na Escola Municipal Professor Kermógenes e no Arnaldo Assunção.

Para participar do projeto, os interessados devem estudar em umas das escolas onde o projeto atua ou fazer parte da comunidade ao redor das escolas. Todo início de semestre uma turma para o curso é aberta.

Uma das alunas do projeto, Maria Luiza, está no segundo ano do ensino médio e desde 2018 veem tendo aulas com a Oficina de Libras. Segundo a estudante, a iniciativa abre portas para conhecer a comunidade, perceber as necessidades e fazer diferente. “Nós temos que realmente ir à luta, para que as pessoas entendam, ‘escutem’ e assim haver uma real inclusão”, conclui Maria Luiza.

Libras em Caruaru
No ano de 2014, a Prefeitura de Caruaru, através da extinta Secretaria de Participação Social, implantou o projeto “São João com Acessibilidade”, que consiste em intérpretes de libras durante os shows do São João de Caruaru. A Secretaria funcionava como uma ponte entre o poder público e a comunidade, na qual recebia a demanda da população em relação a projetos desenvolvidos pela própria prefeitura.

Transmissão em libras de shows do São João

Segundo Leo Bulhões, antigo Secretário de Participação Social, a pasta possuía um instrumento de comunicação próprio, o Gabinete Digital, que através das redes sociais fazia o contato com Caruaru. “O Gabinete Digital tinha um diálogo com a comunidade surda. Nisso fizemos uma roda de diálogo com essa comunidade e durante a conversa surgiu a ideia de ter a interpretação de libras nas atrações do palco principal do São João de Caruaru”, afirma o ex-secretário.

No primeiro ano de atuação do “São João com Acessibilidade”, o intérprete ficava no palco junto com o artista, já no segundo ano o intérprete ficou em uma sala dentro do palco com uma câmera por onde era transmitido as interpretações em um dos telões do palco. Em 2015, o projeto ganhou o Prêmio Nacional de Direitos Humanos. Mesmo após a extinção da secretaria o projeto continua atuando.

Recentemente, a Prefeitura de Caruaru também lançou um curso de libras para guardas municipais e agentes de trânsito. O objetivo é capacitar os servidores para que eles possam se comunicar através dos sinais para mais inclusão e qualidade no atendimento ao cidadão.

Ensinar libras para ouvintes vai além de estar ensinando uma nova língua, ensinar e aprender libras tem muito mais a ver com incluir deficientes auditivos dentro de uma sociedade programada para pessoas não deficientes. “Muitos alunos relatam que quando eles ingressam no curso, que conhecem a libras, é como se os surdos que antes eram invisíveis na sociedade começam realmente a aparecer”, reforça Huan.

 

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Feliz dia do professores àqueles que transmitem com amor o que sabem. Vocês são incríveis! 💙

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Adalberto Ferreira, surdo e Presidente da Federação Pernambucana Desportiva de Surdos, destaca a importância do projeto para a difusão do ensino das libras. “Este projeto representa um benefício para toda a sociedade, não apenas para as pessoas surdas por contribuir para o desenvolvimento de ações de conscientização, a partir da história da comunidade, do léxico linguístico”, pontua.

O ensino da libras proporciona uma sociedade mais democrática e acessível, fazendo com que assim elas possam se comunicar com toda a sociedade, quebrando as barreiras de espaços ocupados. Quanto mais pessoas aprenderem a libras, mais espaços se tornam acessíveis e mais pessoas surdas podem ocupá-los.

Entenda o que é a Língua Brasileira de Sinais?

De acordo com a Lei de nº 10436 de 24 de abril de 2002, entende-se como Língua Brasileira de Sinais (Libras) a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.

A língua pode ser usada por pessoas surdas e não surdas o que garante uma comunicação entre todos. “Ela é produzida através das mãos, do corpo e do rosto e é percebido pelos olhos gerando uma comunicação para aqueles que não conseguem ouvir ou tem uma limitação auditiva, através da modalidade espaço visual, diferente das línguas orais, das línguas faladas que são línguas de modalidades orais auditivas”, finaliza Otávio.

Fonte: https://g1.globo.com/pe/caruaru-regiao/noticia/2019/10/08/oficina-de-libras-promove-inclusao-e-torna-lingua-mais-acessivel-em-caruaru.ghtml

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