Padrinhos se mobilizaram para que religioso viajasse de Curitiba (PR) até o interior de SP e surpreenderam os noivos Dayton Siqueira e Simone Aparecida Pereira com cerimônia especial.

Ao subirem no altar para o casamento, no início de outubro, em Franca (SP), os noivos Dayton Denis Siqueira e Simone Aparecida Pereira levaram um susto. Não havia padre. Foram avisados de que um substituto teve que ser acionado de última hora, mas não faziam ideia de quem era.

Como são surdos, o padre escalado anteriormente já estava ciente de como deveria ser a cerimônia especial. A surpresa veio quando eles viram surgir no corredor o homem considerado o ‘anjo da guarda’ dos dois. O religioso Wilson Czaia atua na diocese de Curitiba (PR), mas fez questão de viajar até o interior de SP para abençoar a união do casal.

Czaia, que também é deficiente auditivo, realizou a celebração na Língua Brasileira de Sinais (Libras), e emocionou os convidados e os noivos. “Estamos muito felizes”, diz Dayton.

História de amor
Em 2012, após uma conversa com o padre Wilson Czaia durante o Hallel, festival de música cristã que reúne milhares de fiéis em Franca, Dayton se encantou por Simone.

O rapaz lembra que se sentia sozinho e encontrou o religioso que participava de uma atividade em uma tenda para evangelização. O padre o animou com mensagens de otimismo. Prestes a ir embora, Dayton diz que Czaia pediu a ele que aguardasse cinco minutos. Nesse intervalo, o jovem viu Simone no meio da multidão.

“Eu me aproximei, comecei a conversar e logo trocamos o número de celular para conversar no Whatsapp. Conversa vai, conversa vem, começamos a namorar.”

Simone morava em Jacuí (MG), a cerca de duas horas de Franca. O namoro engatou, mas a distância. Em 2016, os dois decidiram morar juntos e ela se mudou para o interior de SP.

Igreja inclusiva
A religião sempre fez parte da vida do casal. Dayton nasceu em uma família espírita e Simone, em uma católica. Quando se apaixonaram, descobriram o trabalho feito pela Pastoral do Surdo. Aos domingos, passaram a frequentar as missas especiais na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no bairro Jardim Paulistano.

A missa celebrada com intérpretes levou o casal a se aprofundar na fé católica. Voluntária na pastoral, Maria Rita Capel atua diretamente traduzindo em Libras as mensagens e os ensinamentos bíblicos.

“Para a comunidade surda isso é o máximo. Até então, todo mundo só ficava olhando, mas não se envolvia tanto. Quando o padre Ovídio abriu isso, daí pra frente, eles [surdos] se apegaram à igreja”, diz.

A diocese nomeou o padre Ovídio José Alves de Andrade responsável pela Pastoral do Surdo na cidade. Com o tempo, foram desenvolvidas atividades com o propósito de incluir deficientes auditivos na igreja e eles puderam receber os sacramentos, como batismo e eucaristia.

“Hoje eles participam de encontros de jovens, encontro de casais. Tudo que tem dentro de uma paróquia, a pastoral faz o encaixe dos meninos. Tem uma equipe que se reveza na interpretação”, explica Maria Rita.

Foi justamente o convívio com outros casais na paróquia que despertou em Dayton e em Simone a vontade de casar na igreja. A tradutora explica que a comunidade se empenhou em ajudá-los.

Como havia crescido na doutrina espírita, Dayton teve que passar por todas as etapas da catequese até receber a comunhão. Para os católicos, a hóstia consagrada é o próprio corpo de Cristo.

Surpresa para os noivos
Após concluírem as obrigações civis e religiosas, o casal marcou a data da cerimônia. Em setembro deste ano, os dois voltaram a participar do Hallel e, para surpresa de Dayton, o padre Wilson retornou a Franca.

Desde que o rapaz passou a considerá-lo o anjo da guarda do relacionamento, há sete anos, eles nunca haviam se encontrado. Na ocasião, Dayton pediu a palavra e revelou aos amigos da pastoral e ao religioso o amor que havia descoberto por intermédio dele.

Foi a deixa para que Maria Rita e os demais membros da pastoral começassem a organizar a surpresa na cerimônia. Dias depois do festival, ela entrou em contato com o padre Wilson e contou sobre o casamento marcado para o dia 5 de outubro. A ideia era fazer com ele voltasse a Franca para celebrar o casório.

“Ele falou que aceitava, mas pediu segredo. Nós não comentamos nada com ninguém. No dia seguinte ao casamento, o padre Wilson tinha que estar em São Paulo para a ordenação de um diácono surdo. Compramos a passagem dele na sexta-feira, de Curitiba para Ribeirão Preto.”

Emoção
No dia do casamento, Simone se preparou com a ajuda de amigas da igreja. O dia da noiva teve a beleza produzida pelas amigas Alisnei Souza, Gleice Kelly e Erica Ribeiro. O buquê, as lembrancinhas dos padrinhos, o bolo e dos docinhos da festa também foram elaborados com a ajuda das madrinhas.

Às 17h, todos os convidados e os noivos estavam na igreja, mas e o padre escalado para a cerimônia? Coube a um seminarista a missão de criar o clima para que o casal não desconfiasse da surpresa que estava por vir.

“O seminarista Márcio avisou que naquela hora não havia padre para celebrar o casamento, mas que a igreja já havia providenciado um substituto. Ele pediu a nós dois que olhássemos para a porta de entrada da igreja. Ao ver o padre Wilson entrando, nós não conseguimos falar nada”, diz Simone.

Dayton não conteve as lágrimas. “Na hora, parecia que Jesus entrava junto com o padre Wilson”, afirma.

Padre Wilson, que atua em Curitiba pela inclusão da comunidade surda, se emocionou ao levar sua mensagem ao casal e aos convidados. Para Maria Rita, o esforço valeu a pena.

“Foi muito bonito e eu me sinto feliz. A gente percebe a razão da vida. Viver é fazer a outra feliz. Eles são seres humanos que necessitam estar no meio, incluídos, e não à parte.”

Fonte: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2019/10/27/anjo-da-guarda-de-casal-surdo-padre-celebra-casamento-em-libras-em-franca.ghtml

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